- minha vida cada vez mais se parece com um quadrinho do Neil Gaiman.
a garota falou enquanto o ônibus em que ela estava entrou no Drive-Thru do McDonald's.
a lua cheia se escondia amarela entre copas de árvores. fora um dia cansativo e ela queria chegar logo em casa, tomar um banho. mas como a única coisa na geladeira era uma laranja meio velha, não reclamou muito dos sacolejos do ônibus passando pelo estacionamento.
as manobras eram difíceis numa faixa tão estreita. alguns passageiros faziam queixas em voz alta contra o governo, que não garantia a acessibilidade do povão a um simples BigMac.
o motorista, depois o cobrador, depois cada um dos passageiros fez o seu pedido. a garota pediu um número 3, porque era o seu número da sorte, com fritas e uma coca-cola de 500ml. atrás do ônibus carros businavam e recebiam copos vazios de volta.
depois que as sacolas de papelão foram entregues e assim que o motorista conseguiu livrar seus dedos do ketchup, o ônibus voltou a andar. dessa vez na pista.
o garoto estava com sono e não entendia como ainda havia pessoas que comiam carne. ainda mais carne processada de minhocas. deu de ombros.
-e a minha vida cada vez se parece mais com uma seção promocional de cinema. aquelas que velhos, mães com bebês e outros desocupados vão porque não conseguem pensar em outra coisa mais útil para fazer. ou adolescentes matam aulas para dar uns amassos.
-é, eu sei do que você está falando.
os dois riem.
-não, estou brincando. mas olha só, muitas vezes os filmes das seções promocionais são bons.
-ah vá!
mas no fundo ele parecia consolado.
atrás deles havia dois homens bonitos. um era velho. o outro era novo. o velho tinha os cabelos grisalhos nos ombros, um chapéu cinza e várias taatuagens. uma era uma cruz embaixo do olho direito. o novo era imenso, com roupas também imensas de jogador de basquete. eles não tinham nada a ver um com o outro, mas com um sinal do velho, o novo puxou a cordinha do ônibus e a luz de Parada Solicitada se acendeu. Desceram juntos no ponto que ficava perto de um supermercado e uma loja de pneus. O ônibus largou fazendo as árvores atravessarem as janelas depressa.
-Não é engraçado que os ônibus tenham janelas tão grandes? Como você não está dirigindo é permitido que você preste atenção nas coisas, viaje com seus pensamentos e tal.
-As janelas são grandes porque os ônibus são grandes.
-E os ônibus são grandes porque...?
-Porque transportam muitas pessoas.
-E eles transportam muitas pessoas porque..?
-Porque muitas pessoas precisam ser transportadas.
-Foi o que eu disse. As janelas são grandes porque cada vez mais pessoas precisam ser transportadas. Para fora. Entende? Da realidade e tal.
-Pff!
A garota riu e alguns passageiros olharam para ela. Na janela, seu reflexo pairava sobre os carros ao lado, como a imagem de uma santa urbana. Olhou pro outro lado.
a lua cheia se escondia amarela entre copas de árvores. fora um dia cansativo e ela queria chegar logo em casa, tomar um banho. mas como a única coisa na geladeira era uma laranja meio velha, não reclamou muito dos sacolejos do ônibus passando pelo estacionamento.
as manobras eram difíceis numa faixa tão estreita. alguns passageiros faziam queixas em voz alta contra o governo, que não garantia a acessibilidade do povão a um simples BigMac.
o motorista, depois o cobrador, depois cada um dos passageiros fez o seu pedido. a garota pediu um número 3, porque era o seu número da sorte, com fritas e uma coca-cola de 500ml. atrás do ônibus carros businavam e recebiam copos vazios de volta.
depois que as sacolas de papelão foram entregues e assim que o motorista conseguiu livrar seus dedos do ketchup, o ônibus voltou a andar. dessa vez na pista.
o garoto estava com sono e não entendia como ainda havia pessoas que comiam carne. ainda mais carne processada de minhocas. deu de ombros.
-e a minha vida cada vez se parece mais com uma seção promocional de cinema. aquelas que velhos, mães com bebês e outros desocupados vão porque não conseguem pensar em outra coisa mais útil para fazer. ou adolescentes matam aulas para dar uns amassos.
-é, eu sei do que você está falando.
os dois riem.
-não, estou brincando. mas olha só, muitas vezes os filmes das seções promocionais são bons.
-ah vá!
mas no fundo ele parecia consolado.
atrás deles havia dois homens bonitos. um era velho. o outro era novo. o velho tinha os cabelos grisalhos nos ombros, um chapéu cinza e várias taatuagens. uma era uma cruz embaixo do olho direito. o novo era imenso, com roupas também imensas de jogador de basquete. eles não tinham nada a ver um com o outro, mas com um sinal do velho, o novo puxou a cordinha do ônibus e a luz de Parada Solicitada se acendeu. Desceram juntos no ponto que ficava perto de um supermercado e uma loja de pneus. O ônibus largou fazendo as árvores atravessarem as janelas depressa.
-Não é engraçado que os ônibus tenham janelas tão grandes? Como você não está dirigindo é permitido que você preste atenção nas coisas, viaje com seus pensamentos e tal.
-As janelas são grandes porque os ônibus são grandes.
-E os ônibus são grandes porque...?
-Porque transportam muitas pessoas.
-E eles transportam muitas pessoas porque..?
-Porque muitas pessoas precisam ser transportadas.
-Foi o que eu disse. As janelas são grandes porque cada vez mais pessoas precisam ser transportadas. Para fora. Entende? Da realidade e tal.
-Pff!
A garota riu e alguns passageiros olharam para ela. Na janela, seu reflexo pairava sobre os carros ao lado, como a imagem de uma santa urbana. Olhou pro outro lado.
1 comentários:
ow, apaga aquele antigo blog meu daí. kkkk :P eu esqueci a senha e não tem como deletar ele. Beijos.
ps. curti seu texto. hihi como sempre.
:)
Postar um comentário