16/09/11

pelada

pelo branco fino da camiseta, a grama penicava. nas pernas nuas a grama penicava. os urbanos só conhecem bem um tipo de planta, árvore, flor: grama. desde pequeno a gente come grama e desde pequena a grama penica a gente.
seu braço doía de baixo da cabeça. mas entre-pálpebras, como entre-linhas, o sol ardia forte e laranja, em bolas de cor e não-cor. grama menina sol, nessa ordem. entre céu e inferno, um jogo de amarelinha.
tudo quieto entre o braço de baixo da cabeça e o braço deitado no peito. entre grama e sol o mundo gritava. na quadra da escola, meninos jogavam futebol. não é isso que eles sempre fazem? crianças crescidas corriam. alguém tentava tocar violão. ela não via. sentia, no entanto.
sentia a quadra apanhando da bola, a bola apanhando dos pés, os meninos uns dos outros. sentia a rede estufar sem entusiasmo, com um sonolento grande coisa. e os suores pingando e os sorrisos sorrindo. e aquele brilho no olhar. sabia sem ver que o garoto agora tinha os olhos como a boca: sorrindo brilhante. brilhante brilhante. em cores e não-cores. as bolas sempre correm e nós sempre corremos atrás, não é mesmo? ela fingia que não via, mas sem abrir os olhos sabia dele correndo enlouquecido, como um cachorrinho, de um lado para o outro. às vezes é possível esquecer. as vezes é possível esquecer os outros e enterrar os dedos na grama, correr atrás de bolas. às vezes as coisas param entre o sol e a grama e é como se não houvesse ninguém. faz silêncio nessas horas. e dedos se enfiam na grama e pernas correm atrás de bolas.
queria que ele parasse de chutar aquela coisa estúpida. queria abrir os olhos e talvez se juntar ao grupo de torcedoras que gostavam de regatas e braços dentro delas. queria rir bem alto de algo nem tão engraçado pra ver se alguém errava um gol. queria gritar um palavrão suado como os que saiam da quadra.
queria enterrar os dedos bem forte no cabelo dele, queria que ele corresse atrás dela.
a grama penicou mais. o uniforme era leve por causa do sol. transparente, ela achava. justo também. as garotas gostavam de tirar fotos com seus uniformes.
o braço doía ainda. pensou que ficaria com cãibras. teria que abrir os olhos, se sentar, espanar a grama do cabelo. olhar para a quadra e depois não fecharia mais os olhos. depois o mundo gritaria. queria poder dormir ali mesmo. depois almoçar e dormir um pouco mais. seu braço realmente doía. suspirou. ensaiou o movimento de abir os olhos, quando o gesto fica só na cabeça e não sai da gente de fato. finalmente e bem de-va-ga-rinho  abriu os olhos. o sol passou de ondulações de cores e não cores para simples bola amarela. apoiou o corpo nos braços para se sentar. espanou a grama dos cabelos. na quadra uniformes leves por causa do sol suavam.
a sirene tocou. ninguém podia estar mais decepcionado com o fim do jogo.

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