18/07/11

lua cheia em aquário

a lua disputava o cosmos com o sol na madrugada de caroline.
nas luas cheias, sol e lua ficam alinhados em oposição, causando as marés altas e as marés de água-viva. por sorte a casa ficava encarapitada no alto da capital do brasil, num lugar com o nome inusitado de córrego do urubu, depois de um motel vermelho e uma estrada de terra.
e há anos já não havia notícias de água viva no lago, colinas e colinas à baixo, cintilando como caquinhos de vidro, na noite clara que antecedia os primeiros cinzas da manhã.
mas era sim de se preocupar o fato de que a lua entrava em aquário no dia 15 de julho, olha só, exatamente esse mesmo dia da madrugada de caroline, o que favorecia descontração, rebeldia e entrega. talvez por isso, na madrugada de caroline, no alto do córrego do urubu, todos parecessem tão descontraídos, rebeldes e com uma tendência além do normal para se entregarem. e entregaram.
os copos se esvaziavam como que por mágica. as pessoas, como que por mágica, transbordavam. e depois de um tempo não houve mais ninguém a se perguntar onde é que diabos eles, os copos, iam parar ou pra onde elas, as pessoas, escorreriam.
eu encontrei os grandes olhos de caroline quando eles encontraram a lua cheia. eram verdes e amarelos e castanhos ao mesmo tempo. e piscavam muito mesmo. caroline tinha belos olhos grandes verdes amarelos e castanhos ao mesmo tempo. não disse isso à ela.
caio estava aéreo aquela noite. não sabia muito bem onde deixara o casaco, e era uma noite em que realmente se precisaria de um casaco. michele pegou o telefone de catherine e falou por aproximadamente meia hora com o namorado de outra cidade. depois sumiu no mato. catherine não ficou feliz quando lembrou disso quando entrou no seu fusca amarelo, já com o sol nas costas. já tiago estava confuso aquela noite: com uma vontade estranha de beijar garotas. kamila não estava lá, mas se estivesse provavelmente admiraria bem as estrelas do céu sem nuvens e refletiria levemente sobre enchentes de água-viva. era uma noite para poucos.

encontrei os lábios de caroline antes que eles encontrassem outro copo de cerveja. ainda havia muitos pela casa.
caroline me contou que fazia história e tinha algumas noites a mais do que eu de luas cheias e enchentes. não me contou muito mais.
o sol nasceu atrás dos cabelos de caroline, espalhados na grama. a lua resistia redonda num céu que ia do azul ao azul, passando por infinitas cores. é coisa bonita de se ver, o sol nascendo entre os cabelos de uma garota. não disse isso à ela.

na cidade, as pessoas acordavam com cafés e água no rosto. as ruas se enchiam ao redor do fusca amarelo de catherine. caio não achara seu casaco. michele não voltara. mas eu me sentia como numa enchente de águas-vivas.



2 comentários:

Anônimo disse...

ai, lauroca, você conseguiu se inundar, né? que bom que chegou rápido.


saudade.

Giuliane disse...

te acho foda