25/06/11

e o seu corpo tinha tatuagens exatamente onde devia ter. uma que lhe subia pelo ombro direito com uma gargalhada que mirava o sol nascente sem medo. outra que completava descendo por um peito bem torneado onde ela dormiria por umas duas semanas, nos pêlos pretos que se encaracolavam no coração. e a última que subia pela coxa esquerda com um colorido de manhã descarado, de quem acorda em almodóvar com ovos fritos e suco de laranja.
tinha umas tatuagens que falavam por si, um corpo que agia só e quase não lhe deixava pensar que o nome o nome era pedro. meu nome é pedro, sussurrou, o sol lhe nascendo nos ombros.

sabia que não importava. que naqueles dias nada importava. o nome dele o dela, o dia, a estação, a música no rádio. que no fundo viviam todos frementes por qualquer palpitação a mais ou a menos. que era para isso que eram jovens e eram, constantemente, perdoados. os anjinhos de azul no céu falando tudo bem, deixa estar, são crianças.
se amavam como loucos.
sabendo que com o despertador viriam as realidades doloridas do dia-a-dia e a noite ficaria como sonho de quem ainda brinca de giz.
ele, como menino, se esticaria na cama da mãe, a barba afundada num travesseiro que não era seu. ela nem dormiria, seu cheiro no corpo, daria bom-dia ao porteiro e vestiria o uniforme como sempre.
só nos restam as noites.
ele sentiria na pele morena, castigada, qualquer carícia de sonho.
ela sentiria na pele morena, castigada, qualquer lembrança de virgem.
mas depois era segunda e ainda depois era terça, a vida ia matando a gente em tons de cinza pra gente não notar os nasceres do sol.

no final, só nos restam as noites.

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