Enxugou a testa com as costas da mão. No avental sujo jaziam restos de um dia movimentado. Canudos, guardanapos, cupons fiscais de contas que ultrapassavam seu aluguel. O olhar varreu o salão escuro com a resignação de quem espera pouco. No relógio da cozinha a hora do fechamento se aproximava em vermelho digital. O uniforme estava no corpo suado há quase onze horas. Não vira o sol se pôr atrás dos prédios de apartamentos, a chuva viera sem a despentear e passara e agora só sentiria o vento frio que vinha do lago.
Tudo naquele lugar era ritual. As horas se fundiam e há mais de um ano suas falas e gestos eram os mesmos. Havia pessoas demais, percebera nas primeiras semanas. Impossível se lembrar do rosto, da roupa, do prato pedido. Não tentava mais. Todos eram um. Clientes. Mais ou menos desagradáveis. Viravam mesas numeradas, sabor de refrigerante. Mas quando se sentavam ali, à meia-luz de um lugar que pra ela já era segunda casa, ao som de músicas que ela ouvia cinco vezes por dia, se sentiam todos muito especiais. Atendimento personalizado.
-Bom dia/Boa tarde/Boa noite, gente. Meu nome é Laura, eu vou atender vocês. Já gostariam de beber alguma coisa ou querem um tempinho pra escolher?
Assim, informal-educada, quase como uma filha de pais velhos. O que? Umas quinze, vinte vezes por noite? Quanto mais, melhor, pensava cansada. E num cardápio já reduzido eles sempre pediam as mesmas coisas. Quase ridículo. Pratos pra casal, pratos para mulher, pratos para homem, pratos para gordos, pratos para quase-pobres, pratos para quase-ricos. O restaurante comportava de hanburguers à uma pequena Enoteca Fasano, para todos os bolsos pesados. Bom principalmente para quem não era exatamente rico, mas gostava de achar que era.
Sabia de olhar o que cada um pediria pra beber e quase com certeza se dariam ou não lucro, que é o que importava no final das contas. Mas era justa, melhor que Deus na sua indiferença. Todos são iguais desde que paguem o serviço.
Uma vez um rapaz viu qualquer beleza por detrás do uniforme largo e fez uma brincadeirinha, do topo do seu status de consumidor. -Olha, querido, a melhor cantada pra uma garçonete é gorjeta. Sorriu quando ganhou cinco reais e não telefonou no dia seguinte.
Outras vezes perguntavam esperançosos a que horas ela sairia e sua piada pronta vinha com um sorriso: -Ai, querido. Você não me esperaria nunca.
Porque saia depois do fechamento do shopping, do restaurante e do estacionamento, nessa ordem.
Quando o casal entrou faltavam quatro minutos. Suas mesas já estavam limpas. Faltava pouco pouco e a mulher sentou. Era uma mesa de seis lugares e ela se sentou lá, bem acomodada com o namorado. Quis gritar. Quis chorar. Quis jogar trezentos e quarenta e seis pratos na cabeça deles.
-MINHA FILHA, NÃO PODE SENTAR AQUI NÃO. VOCÊ ACHA QUE A RECEPCIONISTA É PAGA PRA QUÊ, PRA VOCÊ ESCOLHER A MESA QUE BEM ENTENDER? NÃO, FOFA, É PRA ELA TE COLOCAR NUMA MESA DE CASAL DE ALGUÉM QUE NÃO ESTÁ AQUI DESDE O MEIO DIA E VAI AMAR TE ATENDER PRA GANHAR DEZ REAIS!
Mas não. Na verdade, e ela entendia mesmo, mas cansava, na verdade nenhum deles tinha a mínima obrigação de entender como é que as coisas funcionavam. Ai, mas as secretárias pelo menos podiam ser grossas.
-Boa noite, gente. Meu nome é Laura, eu vou atender vocês.
Prato pra casal. Suco pra ela, coca pra ele. Nenhum chopp.
Depois, ela explicava aos amigos coisas que não pareciam ter sentido nenhum. Odiava adultos que bebiam refrigerante. Odiava qualquer um que bebia coca zero, mas odiava mais ainda quem bebia coca light plus. Odiava quando crianças, meninas sempre, pediam coca zero. Não gostava de quem pedia peixe, a menos que fossem velhos. Odiava quando usavam garfo e faca para comer uma porção de batata frita. Gostava quando pediam salada de entrada, desde que fosse uma para cada. Gostava de quem comia carne mal passada. Amava quem tomava chopp, desde que não fosse só um. E nada disso interferia realmente no seu trabalho, mas comprovara empiricamente que a gente é o que a gente come e amigas que dividiam uma tilápia também reclamavam da mesa bamba, do refrigerante sem gás, da demora dos pratos, das crianças passando, da música alta. E homens que comiam 500g de carne e bebiam quatro chopps e sujavam os bancos não ficavam a chamando de Ow! ou Moça!
Aprendera também que o mundo era mesmo muito duro com as mulheres, porque esse era o único motivo plausível de 80% delas ser tão mesquinha e antipática. Já desconfiava antes, mas agora sabia que as mulheres desde pequenas eram educadas para serem frescas e controladoras. Porque em algum momento foi dito à elas que esse era o único jeito de se defenderem dos homens que são cafajestes e mentirosos e só querem te usar. Odiava as boas esposas, lindíssimas e insuportaveis. Mas também odiava a fraqueza de homens que se submetiam a isso, porque desde pequenos lhes foi dito que as mulheres são fúteis, tempestuosas e só querem usar seu dinheiro. E via que entre os ricos a vida amorosa era ainda mais triste e fria e girava em torno de jóias e vinhos. E tinha pena mesmo dessa gente que nunca conheceu o amor. E para garantir sexo ou estabilidade se obrigava a partilhar a vida com desconhecidos.
E que nós todos somos mesmo muito porcos desde que haja alguém para limpar nossa sujeira, como quando ia visitar a mãe e jogava as roupas pelo chão. E bons pais criavam crianças espertas e desbocadas, e maus pais criavam meninas que bebiam coca zero e meninos que comiam demais.
Adorava as crianças que lhe lembravam suas irmãs, com risadas esganiçadas e gritinhos. Adorava carrinhos estampados e portáteis. Tinha pena dos adolescentes que recebiam vinte reais para cinema+lanche exatamente como na sua época, e tinham que falar alto para chamar a atenção que ninguém lhes dava. Freud devia ter sido garçonete.
Os braços fortes por causa da bandeja, um sorriso que ficou por hábito e convenção. Pouca coisa a abalava dentro ou fora do restaurante. Aprendeu a aceitar, como uma mãe de muitos filhos.
A rotina é uma tragédia, um ex-namorado lhe dissera. Sabia que quando chegasse em casa demoraria para dormir, porque o corpo ficava agitado demais e quando dormisse sonharia talvez com diogo ou paulo ou luisa, a mão entre as coxas. E que quando o despertador tocasse ela o desligaria e voltaria a dormir, perdendo a aula das oito. E se o tempo estivesse nublado, também a das dez.
O casal pagou a conta quando as luzes aumentaram. Nesse momento todos sempre diziam que estavam sendo expulsos, um sorrisinho irônico. E ela dava de ombros, um sorrisinho irônico. A maioria ia embora. Alguns, geralmente os mais bêbados, não entendiam o recado.
O restaurante vazio, colocavam qualquer música alta e riam de gente que contava de viagens para Miami e não sabia pronunciar Steakhouse, enquanto varriam do chão os resquícios de milhões de minutos gotejantes. Bebiam demais no posto de gasolina em frente. Fumavam o descanso dos justos, sabendo que a cidade dormia bem com suas fraldas limpas.
No dia seguinte o céu não estava nublado. Perdeu a aula das dez mesmo assim.
[quis colocar uma foto, mas no google todas as garçonetes são atrizes pornôs]
7 comentários:
vida nada facil de levar paozinho
Long time no see
esse texto é tão amargo quanto à vida.
Amei de paixão e senti muita falta dos seus textos maiores aqui, mais "carnudos". Sério, achei que você tinha abandonado isso aqui, por vários motivos, podia ter cansado, desistido, a vida corrida, não ter mais saco, etc etc e etc.
gostei demais desse texto.
E pelo que eu entendi, você virou garçonete do Outback? Vendo pelo que escreveu, não parece mais um emprego tão atraente assim.
Beijos, gata.
laura, você voltou!
Amei de paixão também. Tinha tempo que não visitava seu blog, e tava mesmo afim de ler alguma coisa interessante. Li! =) Vai em frente, neguinha, se não der, suma. beijão, te amo.
Apaixonei no blog!!! vai ser minha principal distraçao aqui no trabalho!!!
Laurinha, fiquei apaixonado....
Ameeeei Laura! Vc colocou em palavras tudo oq eu sempre pensei! E super me identifiquei com TUDO! (inclusive de perder as aulas das 8 e das 10! kkkkk)
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