29/11/09

Cansei da brincadeira de adolescente namoradeira, como diria minha vó.
Quero me ser, com menos sorrisos, menos gentilezas, mais verdades incovenientes, mais isolamento, mais livros e cafés. Guardar a cachaça, o vermelho, a mini-saia. Quero me ser, mais meiga como só minha mãe me vê, mais abstrata como os tios imaginam, mais etérea, distante, longíssima.
Ou nem isso: quero um inexistir seguro, um não dar satisfações, não pagar contas, não conviver.
Quero bolha. Voltar só na primavera.

21/11/09


Quero só tirar esse texto horroroso daqui como quem limpa a casa. Pra quando você abrir minha janela vir brisa fresca e raios de sol.
Ah, estou toda flores.

No meu rádio Maria Rita te intima:

Vem!
Se tiver acompanhado, esquece e vem
Se tiver hora marcada, esquece e vem
Vem!
Venha ver a madrugada e o sol que vem
Que uma noite não é nada, meu bem

09/11/09

Vômito

Sentei na calçada mais próxima pra fumar um cigarro e ficar remoendo nossas palavras com fumaças de menta. As palavras poucas, sóbrias, de dois amigos muito equilibradinhos, muito estáveis, muito conformados com as inconformidades da vida. Te acordei de manhã cedo pra te afogar com os meus disturbios, minhas paixões, te arranquei do sonho pra te trazer pra minha realidade nem tão pé no chão. Mas nem consegui, fiquei no bom-dia, nas banalidades dos dias bons. Expirei meu eu sangrento, não pro seu eu-hemofílico, mas pro arzinho cinza que recebia minhas cascas de nicotina de bom-grado. E chorei minhas lágriminhas bobas pruma calçada de pedra. Verdadeiramente, chorei mais pelo sol branco do que pela dor da sua ausência. Não é inssenssíbilidade não, amor, é só meu corpo respondendo errado aos estímulos externos. Essa mania minha de óculos escuros fragilizou meus olhos, qualquer luzinha natural me franze a testa. Já essa outra mania de amores perdidos cansou meu coraçãozinho remendado, não choro mais. Fica presa, aquela coisa enorme horrível pegajosa dentro do peito da boca dos olhos querendo rebentar, me explodindo por dentro e de repente pára, não extravaza, não ultrapassa mesmo, se detém nos meus sorrisos de falso bem-estar.
Sou uma atriz forçada.
Então agradeci o sol arrombando meus olhos e liberando minhas angústias salgadas diluídas, que pingavam na calçada. Umas cinco.
O velho louco veio chegando mais perto de mim, moça fumando solitariamente numa calçada, muito urbana, muito bonitinha, e perguntou se eu estava ali só pra tomar uma ventilação. Ri por dentro daquilo, tomar uma ventilação. Fiz que sim. Ele perguntou se eu morava perto, respondi que aham, apontei vagamente pro meu prédio-cortiço nos olhando de frente. Não ia dar meu endereço pro velho louco, aliás nem ia ser muito simpática também, não estava com paciência pra velhos loucos. Nem pra velhos lúcidos.Nem pra jovens lúcidos, se você quer saber. Ele perguntou se eu era casada, e acredita que eu ainda tava batendo papo com o velho? Disse que não. "Mas tem namorado?". Aquilo doeu em mim. Disse que sim pensando em você, uma mentirinha pra me livrar de um velho louco, inconveniente numa manhã tristinha. Ai, aquilo doeu em mim.
O velho se afastou rapidinho falando sozinho e eu dei de ombros. Nem os velhos loucos querem amores impossíveis hoje em dia, acho que sou a última lunática. Meu cigarro acabou e eu ainda fiquei um tempo brincando com as cinzas. Mania que não é minha, roubei do Caio Fernando Abreu. Pensei na faxina de casa, ontem. Nunca fumo em casa, só na sacada, mas de repente me pareceu que minha casa era sujíssima de cinzas de cigarro. E de repente a cidade inteira era coberta de cinzas de cigarro e poeira e aquilo invadia meus lençóis brancos, minhas camisas, minhas canecas, meus livros, minha garganta. Senti o gosto daquilo na boca e quis vomitar. Estou doente há quase um mês e não passa, tomo meus remédinhos religiosamente, meus chás de vovó e nada, minha garganta tá podre. Talvez por isso mate as palavras-flores que eu queria fazer brotar no seu ouvido.
Não me reconheço mais na minha escrita, noto isso enquanto escrevo. Não sei se mudei, mas quando me leio é como se fosse um dos livros catalogados da biblioteca, é como um autor qualquer a ser descoberto, completo desconhecido. Quero me ser de novo e não sei como. Me perdi em alguma das pontas dessa cidade, em algum canto dos seus olhos. Caralho, quero rasgar as influências. Já me chamam de existencialista na faculdade, vê se pode! Não terminei A Paixão Segundo GH porque achei um porre, aliás, meu bem, nem seu Machadinho está me agradando muito. Vou comprar uns gibis da Mônica, tô precisando de coisas mais fáceis, mais ingênuas, mais pueris.
Não sei, mas me sinto minha mãe. Li mil livros dela nos últimos tempos e, imagine!, aprendi a fazer molhos. Eu lembro que quando mamãe cozinhava e vinha me dar beijinhos eu a repelia rindo pra amenizar, porque ela estava cheirando a comida. Não só a comida, era mais complexo: coisa limpa, banho tomado e de repente, alho, cebola, gás? Cuidado e eficácia e cotidiano doméstico. Olha só, eu tenho dezoito anos e divido uma quitinete na capital do país então tudo bem se eu fizer um frango no final-de-semana quando todos os malditos restaurantes estão fechados, mas de repente eu estava com o cheiro da minha mãe e aquilo me enojou mas me fez tremendamente feliz também, que eu fiquei até atordoada. Não entendo isso. Se sou eu virando mulher ou o quê. Na verdade, sinto bem isso. Que agora eu amargamente posso entender Clarice, mesmo que ela às vezes seja um porre, e também Margarette e todas elas. Sim, agora entendo as quarentonas e as amo todas e choro por elas e por mim que vou ser elas todas um dias e por isso já sou um pouco, sou uma quarentona em potencial. Ouvindo MPBs antigos, sambinhas, músicas de amor em português, varrendo o chão, refogando o arroz. Quase que vejo meu rosto se enrrugando no espelho. E essa prosa, essa prosa é de quarentonas abandonadas incríveis demais pra serem amadas, compreendidas. Quero chorar no colo da minha mãe pra que ela veja que ainda sou jovem e desiludida com as desilusões do mundo cruel. Mas não choro.
Como é que eu escrevia? Como é que eu escrevia antes, antes de Caio Fernando Abreu, antes de você,antes de Brasília, antes do Jornalismo, do cigarro, de morar sozinha, de ser sozinha? Como é que eu escrevia quando ainda acreditava, quando tudo era mais fácil? Como é que eu escrevia antes de ouvir Elis Regina, Nara Leão? Como é que eu escrevia antes dos teatros, das noites imensas de pseudo-intelectualismos, dessas relações amarguíssimas pros nossos poucos anos? Quero a inconsequência de escrever gírias, de falar bicho, como sempre antes. Quero ter papo pra bater com a Marcella, quero comprar uma revista colorida de rosa falando de moda, e não francesas falando de cinema. Será que a gente cresce assim tão rápido? Num mês, em duas linhas? Num livro? Num amor? Acho que é isso, baby, você me envelheceu, com seus pullovers cinzas.

29/10/09

Crônica do Fim Crônico

Olhei por entre os vidros blindados, os vidros vidrados, os vidros supersônicos hiperbólicos cibernéticos. Olhei por entre os vidros da janela imensa da alma intensa, por entre as dioptrias dos óculos, por entre os humores (vítreos) dos olhos, olhei. E o sol nascia como sempre nasceu, há tantos e tantos anos que eu me pergunto sinceramente como é que ele ainda tem paciência, se ele tem ciência das texturas que molha, das cores que aflora, dos bichinhos todos que acorda. Será?É preto e vai virando azul e nos cantos vai virando cinza que vai rosando amarelos e laranjas e vermelhinhos que clareiam os azuis mais longes, até que é tudo dia. Dia. Todo dia.
O sol que é como um cigarro aceso de repente no meio da solidão da noite do quarto de uma mulher ou um homem insone. Pensei bem nisso: o sol é o cigarro que Deus acende pra povoar suas noies insones, pra esquentar, clarear, esfumaçar, nicotizar a imensidão do universo imenso.
Hoje eu parto e sobre isso preciso escrever, mesmo que não seja bem assim que se deva. Talvez algo mais formal, mais boletim de informações: hoje parto. São 30º do começo de uma manhã de dezembro e tudo é imenso, denso, penso.Me dá medo. Partir, ficar. O cigarro apagar.
Penso que no fundo somos adolescentes fugindo da casa dos pais, nós ingratos. Somos adolescentes fugindo da casa dos pais mortos que nós mesmos matamos. Matamos nossos pais, matamos a casa, o colo, o ninho. Nos matamos e fugimos das algemas da consciência. É isso: fugimos de nós mesmos, coitados. Ingênuos suicidas, serial killers abandonados.
Penso que as pessoas todas que já foram não ligaram pra contar como é. Penso que as pessoas todas que ainda ficam são corajosas, se não o fazem por falta de opções. Mas sei que há mesmo os que ficam por amor ao lar, ao par, a si mesmos, a história, ao concreto, ao conhecido, a humanidade. De certa forma os invejo, os pequenos pobres utópicos sonhadores que vão sempre até o final e continuam também depois do fim, porque nem percebem que o fim chegou, passou, virou a esquina, morreu. Porque o fim chegou, passou, virou a esquina e morreu. Como todo o resto.Como os nossos sonhos virando escombros.Nossas criancinhas soterradas.
Penso que o problema é unicamente arquitetônico: criamos pontas, facas. É sério isso: tudo o que fizemos é pontiagudo demais, duro, cortante, simétrico, metálico. Nos cortamos nos nossos próprios prédios triangulares, compridos, nos espetamos nos vértices. Faltam curvas, ondas, aconchegos, levezas. Caminhamos demais por entre essas facas todas, espetadas na terra, apontando pro céu, querendo mesmo alcançar Deus. Caminhamos como faquires por entre as agudezas da nossa alma externada: nossa arquitetura nos matou. Perdemos pedaços, fomos assim meio que lapidados, e nem morremos. É isso: perdi um pedaço e nem morri.
Tornamos tudo ao redor arredio, estranho, espanto. Fomos modernizando aqui e ali, praticidade agilidade virilidade velocidade imbecilidade. Nossa casa virou prédio, virou fábrica, virou máquina, virou nada. Então não é mais lar, não é mais mar, não mais amar.Acordamos de repente num lugar que não era nosso, num lugar que nunca tinhamos visto antes, será possível que sempre estivessse estado ali? Feio, assustador. Acordamos num pesadelo qualquer que não acordava nunca. Não reconhecíamos nossos rostos nos espelhos, não conhecíamos mais ninguém na cidade, não sabíamos. E fugimos.Nossos sonhos viraram escombros. Foram soterrados com o Pacífico, transformados em shoppings centers, descongelaram, desmataram, demoliram.
Cheguei a pensar que não falta muito para os nossos travesseiros virarem pedras, pranchas, facas.
Hoje parto.
O sol, que é o mesmo da eternidade, dos nossos antepassados todos, e antes deles, o sol nasce. E vai colorindo aos poucos a água gélida azul geléia. O sol redondo, o mar a ondular. E os raiozinhos dourados surfam até a praia, iluminando as primeiras areias como pequenos brilhantes. É o mais belo nascer do sol que já tive tempo de parar pra olhar.
O sol nasce na praia da Terra. Vai ganhando o planetinha azul ainda, e todas suas ilhazinhas. É uma coisa realmente bonita de se ver, quase como se ainda pudessemos ter esperança. Vida nascendo do cigarro aceso de Deus tragando forte, sobrevivendo. Deus solitário nesse quarto imensamente escuro, sentado na borda da cama, tragando o últmio cigarro do maço com vontade, pra que vivamos. Vivamos. Ao redor, escuro escuro imenso para todos os lados até onde se consiga ir e mais. Deus só com seu último cigarro, sobrevivendo.
Acendo um cigarro pra fumar com Deus. Nós dois sentados na borda da cama do mundo, mares e céus azuis ao redor, mais ninguém. Somos os últimos, Deus e eu. Ficamos. Tragamos. Vivamos.
O sol nasce.
Hoje parto.

27/10/09

Quando você foi embora, Lili comentou:
-Sabe o que é pior?
-Hum?
-Ele é legal.
Eu concordei com a cabeça, mesmo sabendo que nem de longe isso era o pior.

26/10/09

Para entender a dor II

Se viesse a minha casa, eu te levaria a sacada e te mandaria fechar os olhos.
-Ouve?
O barulho é horrível. Os automóveis zumbem às seis da tarde nessa avenida movimentada como um enxame de abelhas preso num pote. É ensurdecedor, claustrofóbico.
-Eu senti como se cada um deles passasse por cima de mim. Várias vezes.

Para entender a dor I

Não só me matou, me abateu. Eu engordava mansa nos seus pastos de sonho. Veio e tomou de volta esse amor emprestado. Tombei, cai no mundo, quebrei os ossos e fiquei. Fiquei.